Portal do Butantan
English

Jovem Cientista | Ciência é errar, mas não desistir, diz doutoranda do Instituto Butantan que estuda a cobra-da-morte australiana

Defensora da preservação animal e educação ambiental, Monica Viviana Abreu Falla ultrapassou barreiras na pesquisa e leva os aprendizados do laboratório para a vida


Publicado em: 02/07/2026

Reportagem: Aline Tavares
Fotos: Bruna Custódio
 

Amante da natureza e dos animais, a paulistana Monica Viviana Abreu Falla, 28, cresceu em um ambiente de muito afeto e persistência. Enquanto o pai trabalhava como vendedor ambulante e a mãe como técnica de enfermagem para ajudar a pagar seus estudos, a jovem se debruçava com curiosidade sobre os livros de ciências na escola. O caminho não poderia ter sido diferente: formou-se em Biologia na Universidade Paulista (UNIP) em 2019 e, hoje, faz doutorado no Instituto Butantan, onde estuda o veneno de uma serpente australiana conhecida como cobra-da-morte.

Antes de ingressar no Butantan e se dedicar à pesquisa de uma das serpentes mais peçonhentas do mundo, Monica fez uma iniciação científica no Jardim Botânico de São Paulo, durante o segundo ano da graduação. Lá, a estudante entrevistava os visitantes e apoiava na divulgação de conhecimentos sobre a biodiversidade.

Mesmo cativada pela importância da educação ambiental, a jovem ainda desejava vivenciar uma experiência prática em laboratórios de pesquisa, perto dos microscópios e das vidrarias. No último ano da faculdade, soube de uma oportunidade de estágio no Laboratório de Bioquímica do Instituto Butantan, por intermédio de um colega, e decidiu se arriscar. Para ela, o dia da entrevista de estágio foi um dos mais memoráveis – mesmo com o nervosismo e o medo de não conseguir a vaga.
 

 

“Entrar no Butantan foi um sonho. Desde o início da graduação, eu falava sobre o Instituto para os meus pais, mas nunca imaginei que fosse possível trabalhar lá”

Durante os seis meses de estágio em 2019, supervisionada pelo pesquisador científico Ivo Lebrun, Monica adentrou um admirável mundo novo: aprendeu a pipetar, preparar soluções, fazer pesagem e muitas outras práticas rotineiras de laboratório. Ao mesmo tempo, escutava pelos corredores os outros estudantes falando sobre seus trabalhos de pesquisa, e se empolgou com a ideia de desenvolver o próprio projeto.

Foi quando decidiu se candidatar ao mestrado em Toxinologia do Instituto Butantan, ingressando no programa de pós-graduação em julho de 2020, pouco depois de concluir a graduação. A fase foi um divisor de águas em sua vida profissional e pessoal, marcando seu amadurecimento como cientista.
 




Um desafio recompensador

O primeiro contato de Monica com serpentes foi durante o mestrado no Instituto Butantan. Seu projeto envolveu a investigação de venenos de 10 serpentes brasileiras e africanas da família Viperidae, as famosas víboras, com o objetivo de identificar moléculas de baixa massa molecular (peptídeos e fragmentos de proteínas). Essas moléculas costumam despertar o interesse da ciência devido ao seu potencial farmacológico, além de serem importantes para entender a evolução das toxinas do veneno.

Em seu trabalho, Monica propôs uma metodologia complementar para separar, identificar e quantificar os peptídeos nos venenos, utilizando a chamada cromatografia líquida de interação hidrofílica (HILIC). Ao compará-la com a cromatografia de fase reversa (RP), técnica clássica no estudo de toxinas, a jovem demonstrou que a HILIC foi capaz de aumentar a identificação de pequenas moléculas, que são mais difíceis de isolar pela técnica tradicional.

O caminho do projeto não foi simples e envolveu muitos desafios metodológicos. A cientista recebeu três negativas e precisou refazer boa parte dos experimentos até conseguir, com louvor, publicar seu primeiro artigo na revista internacional Journal of Chromatography, em fevereiro de 2025. Monica se recorda do dia em que recebeu o e-mail de aprovação para publicação, ao lado do orientador Guilherme Rabelo Coelho, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP de Ribeirão Preto, e da forma como os colegas vibraram por ela no laboratório.

“O trabalho recebeu muitas críticas, mas depois da publicação foi muito elogiado. A ciência é isso: errar e acertar, e não desistir”

Quando publicou o artigo, a bióloga já havia começado o doutorado no Instituto Butantan. Apesar de algumas pessoas terem sugerido para a jovem seguir em frente e focar em um novo projeto, ela se recusou a deixar o trabalho do mestrado para trás. “Eu passei muito tempo me dedicando àquela pesquisa. Era uma etapa que eu precisava finalizar”, reflete.

Se em 2019 Monica entrou no estágio como uma jovem universitária tímida e com medo de errar, hoje ela se tornou mestre e uma doutoranda comunicativa, persistente e mais preparada para enfrentar os desafios da ciência – e da vida. No final de 2025, durante a Reunião Científica Anual do Butantan, superou a vergonha de falar em público e as barreiras do idioma para apresentar seu projeto de doutorado em Toxinologia em inglês a toda a comunidade de pesquisadores da instituição, arrancando aplausos da plateia.
 

 Monica com o orientador Ivo Lebrun e a colega Heloisa


Desvendando a cobra-da-morte

No doutorado, o objeto de estudo de Monica foi a cobra-da-morte (Acanthophis antarcticus), serpente peçonhenta australiana que pertence à família Elapidae – assim como a brasileira coral-verdadeira. Na Austrália, o animal é um símbolo cultural, mencionado em obras literárias desde o século XIX, e seu nome popular vem da potência de seu veneno. Devido ao corpo robusto e cabeça triangular, a cobra-da-morte foi por muitos anos erroneamente classificada pelos cientistas como uma víbora (família Viperidae, a mesma da jararaca), até ser reclassificada em 1859.

O envenenamento por Acanthophis antarcticus provoca efeitos neurotóxicos, podendo causar paralisia e insuficiência respiratória, mas a composição da peçonha ainda é pouco conhecida pela ciência. A missão de Monica foi realizar uma caracterização bioquímica abrangente do veneno, identificando as proteínas e suas funções. O trabalho, publicado em agosto de 2025 na revista Toxins, revelou uma composição complexa e diversa.
 

 

“Um dos principais achados foi que o veneno da cobra-da-morte tem algumas enzimas com atividade proteolítica, algo incomum em serpentes da família Elapidae. Isso significa que ele é capaz de degradar proteínas. Embora essa não seja a atividade principal do veneno – que é neurotóxico –, vimos que existe essa ação secundária”, explica a bióloga.

Esse tipo de conhecimento ajuda a compreender mais não só sobre o envenenamento, mas sobre a própria evolução da espécie. Monica defende que, para além da busca de moléculas com potencial terapêutico, estudar os animais é fundamental para preservá-los – em especial diante dos atuais desafios ambientais que ameaçam suas populações.

“Nós temos que nos importar mais com os animais, com a vida que está ao nosso redor, e entender mais sobre essa vida para poder protegê-la”

 

 

Lições do laboratório para a vida

Entre tantos momentos marcantes no Butantan nos últimos seis anos, Monica guarda com carinho a lembrança do dia da qualificação da tese de doutorado, realizada em 6 de fevereiro de 2026, que lhe mostrou que ela era capaz de alcançar mais do que esperava. A persistência é uma característica que herdou dos pais – filha única, ela conta que ambos se esforçaram muito para que ela pudesse ter uma educação de qualidade. Não ter desistido de seu projeto de mestrado, mesmo quando tudo parecia estar fora do eixo, foi reflexo do que aprendeu dentro de casa, e que busca levar para outras esferas da vida.

“Temos muito a aprender com as coisas que dão errado. Se permita errar. Mesmo sendo difícil, você tem que continuar, porque vai dar certo. Precisamos de desafios para evoluir”

Para a jovem cientista, mesmo com os percalços que enfrentou durante o mestrado, a caminhada se tornou mais leve graças ao apoio diário dos orientadores e dos colegas de laboratório. Hoje, na reta final do doutorado, ela afirma que nada na ciência é possível de se fazer sozinho, e que é preciso estar disposto a ouvir, aprender e compartilhar conhecimento.

“Se eu conseguir passar um pouco do que aprendi para outras pessoas, já será muito gratificante. Da mesma forma que tive apoio, também quero ser esse apoio para alguém. As pessoas podem nos ensinar muito”, diz a estudante, que sonha em atuar na área farmacêutica, mas sem deixar de lado a pesquisa acadêmica, já de olho em um pós-doutorado.

 

Monica e colegas do laboratório. Ao centro, seu orientador Guilherme Coelho, durante a Reunião Científica Anual do Butantan em 2025